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segunda-feira, 11 de março de 2013

Poema aos homens constipados de António Lobo Antunes

"Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer."

António Lobo Antunes

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

JOSÉ RÉGIO - SONETO QUASE INÉDITO...


.../...

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.


Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
 

terça-feira, 29 de março de 2011

Fina flor, linda cabeleira
de cor púrpura pintada
de branco polén salpicada
viva cor da natureza


Onde havia de nascer
planta de tamanha nobreza
num barranco, num baldio
o simples mortal a despreza

É brava e forte
mas tem por sina o corte
nos meses de S. João
por grossa e rude mão

Leite morno do meu gado
com uma pitada de sal
serás primeiro coalhada
depois queijo do Maioral

sábado, 26 de março de 2011

BELA INFANTA

'Stando a Bela Infanta
No seu jardim assentada
C'um pente de oiro fino
seus cabelos penteava
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada
Capitão que nela vinha
muito bem a governava.
"- Diz-me tu ó capitão
dessa tua nobre armada
se vistes meu marido
que na tera de Deus pisava?"
"- Dizei-me pois senhora,
as senhas que ele levava."
"- Levava cavalo branco,
selim de prata dourada,
e na ponta da sua lança,
a cruz de Cristo gravada."
"- Pelas senhas que me deste
lá o vi numa estacada
morreu de morte valente,
eu a sua morte vingava."
"- Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada,
com três filhinhas que tenho
sem nenhuma ser casada."
"- Que darias tu senhora
a que no trouxera aqui?"
"As telhas do meu telhado
que são de oiro e marfim."
"- As telhas do teu telhado
não nas quero para mim,
que darias mais senhora
a quem no trouxera aqui?"
"- Os três moinhos que tenho
os três tos dava a ti
um moi cravo e canela
outro moi gerzelim
rica farinha que fazem
tomara-os el Rei para si."
"- Os teus moinhos senhora
não os quero para mim,
que darias mais senhora
a quem no trouxera aqui?"
"- As três filhas que tenho
as três te dava a ti
uma para te calçar
uma para te vestir
e a mais bonita de todas
para contigo dormir."
"-As tuas filhas senhora
não são damas para mim
dá-me outra coisa senhora
se queres que o traga aqui?"
"- Não tenho mais para dar
Nem tu que me pedir."
"- Tudo não senhora minha
qu'inda não te deste a ti."
"- Cavaleiro que tal pede
tão vilão é de si
por meus irmãos arrastado
o farei andar por aí
ao rabo do meu cavalo
à roda do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos
acudi-me agora aqui!"
"- Este anel de sete pedras
que contigo reparti...
onde está a outra metade?
a minha vê-la aqui..."
"Tantos anos que chorei
tantos sustos que tremi
Deus te perdoe marido
Que me ias matando aqui..."

quinta-feira, 24 de março de 2011

A AVENIDA E OS SAPATOS

De sapato novo, vai p´ro trabalho
Isabel pela Avenida,
Vai (na) calçada, mas arrependida...

Leva na cabeça o pensamento
No caminho que tomou
Vai passar por um tormento
Onde a calçada faltou
Os sapatos que comprou
Já lhe causam sofrimento
Vai coxeando na Avenida
Parece, mas não têm
A unha do dedo comprida.


Mas eis que pára e atina
Com a pedra no sapato
Já lhe fez um buraco
Na meia de seda fina
"Que porra de sorte a minha
agora é que estou fodida..."
Vai (na) calçada , mas arrependida...

domingo, 13 de março de 2011

BONITAS?... BONITAS SÃO AS BONITAS ACÇÕES!

Dona Izabel Maria
desculpe a minha ousadia
quero consigo falar
não é nenhum elogio
eu com isto faço brio
se quiser acreditar

O seu menino e a sua menina
são de uma pureza tão fina
são os dois um primor
dado pela natureza
é verdade concerteza
é fruto do seu amor

Que nada lhe aconteça de mal
isso é fundamental
digo sem hipocrisia
Deus lhe dê muita saúde
é esta a minha atitude
Dona Izabel Maria

Não se aborreça me mim
porque eu fui, e sou assim
tenho por você muito respeito
eu não gosto de aborrecer
mas só quero agradecer
pelo aquilo que me têm feito

Francisco Manuel Branco

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Memórias do Barranquinho



Já lavei no barranco
de joelhos no chão
a água não era fria
e corria livremente
por entre os dedos da mão

Cada mulher tinha lugar
numa pedra negra e fria
e ali agachada
ficava até estar lavada
a roupa que trazia

Alguidares à cabeça
cheia de roupa lavada
o corpo estremecia
quando o barranco subia
porque a carga era pesada

No estendouro ficava
sem olhar à posição
o mais fino dos panos
uma camisa de linho
ou o trapo do chão

Esse tempo já passou
apertaram o barranquinho
mas ele lá vai correndo
às vezes demais em chovendo
seguindo o seu caminho

E as mulheres que lavavam
De joelhos no chão
encontrei-as a rezar
pr'as dores da alma aliviar,
nessa mesma posição!

Isabel

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ÀS VEZES OIÇO DIZER: "ISTO É TUDO UMA MERDA!"

Este foi uma exposição dos lavradores do Baixo Alentejo ao então Ministro da Agricultura do Governo do Estado Novo, Leovigildo Queimado Franco de Sousa(Soisa), como forma de pedir adubos. E parafraseando algo que muito tenho ouvido nos últimos tempos, porque a voz do povo é a voz de Deus, aqui fica para deleite dos leitores esta verdadeira obra prima de escárnio e mal dizer, mas que diz tudo:


Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.


Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.



Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.



Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!



O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!



A Nação confiou-lhe os seus destinos?…
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
… quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n’um traque do Ministro das Finanças?…
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.



Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n’elas.



Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.



Adubos de potassa?… Cal?… Azote?…
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!



Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…



Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.



Ah!… Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!…
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!



Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.



Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.


Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ÀS AVESSAS

Era uma vez,
um que era
e não era.
Estava lavrando na serra
Veio a notícia:
O Pai tinha morrido
e a mãe tinha nascido.
Pôs os bois às costas
e o arado a pastar.
Subiu por um barranco
abaixo,
achou um ninho de cartaxo
com três ovos de abetarda.
Deitou-os a uma burra parda
sairam três galgos.
Foi com os galgos à caça
passou por um meloal
disse-lhe o meloaleiro:
-Ah ladrão que te mato!
Atirou-lhe com um melão
e acertou-lhe com um pepino no artelho,
correu sangue até ao joelho!

FIM

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Ponte do Guadiana


Este versos foram feitos à data da construção da travessia ferroviária sobre o Guadiana, pela Companhia do Sueste, também conhecida por Companhia Inglesa. A ponte foi, pela primeira vez, atravessada por uma locomotiva em 22 de Março de 1878, tendo sido aberta ao serviço em 20 de Abril do mesmo ano, quando foi inaugurada a ligação à Estação de Serpa-Brinches, na Linha do Sueste (posteriormente renomeada para Ramal de Moura):


Graças a Deus que já temos
A ponte no Guadiana
Mas há-de cair p'ra semana
Que passou.
Esse mestre que a começou
Que viva mais de trinta vezes,
E todos esses ingleses que eu conheci.
Essa ponte que eu lá vi,
Qualquer ventinho a derruba
Está como a Vila da Cuba no cair
Se eu à ponte tornar a ir
P'ra melhor me acautelar
Está untada de alcatrão
P'ra escorregar
Mas se eu à ponte passar
Não considero a morte
Porque aquilo é a ponte mais forte
Que se fez
Disse-me mesmo um inglês
Na ponte do Guadiana
Que há muita coisa que embana
Mas não cai.
Mas se o vapor dela sai
que ninguém faça mangação
que vai parar à estação
da salsa.
Ó ponte se fores falsa
Ó ponte se falsa fores
Não pregues tu ó ponte
Com o vapor na peguia
Se o vapor vêm algum dia
E acha a ponte derrubada
Isso atão não custa nada
P'ra quem vem
Vai desembarcar a Mértola
Que é o mais certo que têm!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Homenagem a José Ary dos Santos, porque as palavras de ontem estão cada vez mais actuais...

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
Ary dos Santos